quarta-feira, 18 de março de 2009

Ser feliz o tempo todo

Eu não estou disposto a morrer de qualquer jeito,
Ainda que não falte quem o queira provocar;
De maneira alguma eu quero, eu me recuso a acreditar
Na cabeça de quem diz que acabou de acordar.

Diz que acordou pra vida,
E agora enxerga mais que eu,
E se oferece pra me dar
A explicação de tudo que entendeu.

E agora quer me convencer
Que o mundo cabe em sua cabeça,
Justificar com “liberdade”
Qualquer coisa que apareça.

E até concordo em que eu, de fato, seja livre,
Pois eu sei que tenho escolha dentre as coisas ao redor:
De maneira alguma eu quero, eu recuso o que é pior;
Merecendo eu ou não, pra mim desejo o que é melhor.

Diz que entendeu a vida,
E é mais livre do que eu;
E se atém só ao que acha,
O que é certeza, já esqueceu.

Tanto mostra se orgulhar
Do quanto pode então fazer…
Coisas tão boas, que as esquece,
E sempre as tem de refazer.

Já me cansei de estar alegre só de quando em vez;
Já me cansei de ser tão tolo e de meu copo encher de ar.
Eu sei que tudo que acaba, na verdade, é muito pouco;
O que eu quero é ser feliz o tempo todo, o tempo todo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

As Palavras que Te Digo

Vem, Espírito Santo, e inspira minha oração; faz brotar de meus lábios palavras puras e verdadeiras, e enche meu coração daquilo que queres que minha boca fale.

Senhor, eu sei que não Te peço “vem” para que venhas — afinal, se és infinito, tudo está em Ti e eu não poderia ficar distante mesmo que tentasse; e, se és Tu que inspiras minha oração, já estás aqui, me mostrando o que dizer. Não, não é para vires que me inspiras a pedir-Te “vem”, mas para que eu não me esqueça de que nunca me deixaste.

Senhor, sabes que, se Te digo que confio que sempre estarás comigo, não digo tudo: afinal, quando digo que “confio” em algo, digo que espero que esse algo se realize enquanto admito a possibilidade de ele não acontecer. Não, não é apenas de confiança que devo falar quando me referir a Ti, mas da certeza de que nunca hás de falhar.

Deus, amado Criador, faz com que essas palavras se tornem atitude; que, a exemplo Teu, eu vá do dizer ao fazer, e passe a amar-Te com tudo que tenho assim como Jesus Cristo, na cruz, não me amou com menos do que tudo que tinha.

Senhor, ensina-me a deixar-Te ser meu Deus, e ajuda-me a não esquecer que “quando sou fraco, então é que sou forte”; ajuda-me a não esquecer outra vez que a minha força não é suficiente, mas que a Tua é inesgotável.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Agora

Como perde tempo aquele que para de andar para lamentar o que não fez no passado, e como o perde, igualmente, quem o faz para ocupar-se do futuro…

Como perdi tempo nas vezes em que me esqueci que o tempo de ocupar-me com o passado foi quando ele ainda não o era, e que o tempo de ocupar-me com o futuro será quando ele não o for mais…

E como ganho tempo, e sabedoria, quando trago do passado apenas as lições e as boas lembranças, adubos para as sementes que devo plantar agora.

Como queixar-me do que não tive, se então eu tinha a Deus? Como queixar-me de sonhos que caíram, se na Eternidade terei a Ele? Como queixar-me do que ainda não viu a hora de ser, se o que preciso para agora tenho agora em Deus?

Ah, mas aprender a depender d’Ele é tarefa árdua, jornada de longa estrada; terei tempo bastante? É claro! Agora há de ser todo o tempo de que preciso, porque, afinal, é todo o tempo que Ele me dá.

Por fim, quando esse mesmo agora me parecer longo por ser dolorido, bastar-me-á lembrar que, face à Eternidade, tudo que acaba é na verdade muito curto. E, quando acabar também essa noção de começar e acabar, hei de deixar de simplesmente “estar” com Deus para enfim “ser” com Ele.

Ma vie n’est qu’un instant, une heure passagère
Ma vie n’est qu’un seul jour qui m’échappe et qui fuit
Tu le sais, ô mon Dieu!
Tu le sais, ô mon Dieu!
Pour T’aimer sur la terre je n’ai rien q’aujourd’hui!

Minha vida é um brevíssimo segundo
Minha vida é um só dia que escapa e que me foge
Tu bem sabes, oh meu Deus
Tu bem sabes, oh meu Deus
Para amar-Te neste mundo, não tenho nada mais que hoje

(Celina Borges, “Nada Mais que Hoje”, Ânima)

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Cogitante

Vivo dizendo que Deus quer o melhor para mim, e que eu também quero esse melhor; mas muitas vezes me percebo fazendo justamente o contrário: com freqüência, contento-me com pouco, mas não no sentido da humildade.

Falo das vezes em que me resigno a situações desagradáveis, mas não incontornáveis, quando o esforço que preciso fazer para mudá-las não me parece valer a pena de imediato. Falo especialmente dos casos em que escondo a minha resignação com o discurso da insatisfação. Em outras palavras, falo dos meus comodismos. Sempre me pergunto o porquê deles, mas confesso que ainda não achei uma resposta que me satisfaça.

Por exemplo, não estudei com antecedência para muitas provas difíceis, dizendo que estava indisposto, que estudar era maçante, que ainda tinha tempo; e, depois do resultado ruim que geralmente vinha em seguida, eu reclamava e dizia que não podia ser daquele jeito, que na próxima vez me dedicaria mais, mas nem sempre mudava logo de atitude.

O que me chama a atenção em mim é o meu comodismo às vezes aparecer mascarado por um inconformismo que não vai além das palavras. Não entendo por que às vezes sou tão imediatista mesmo quando o esforço vale a pena. Por que me conformo com não alcançar o bem que teria se me esforçasse? Por que me engano construindo uma máscara de insatisfação para que os outros vejam? Afinal, parecer inconformado diante das outras pessoas não compensa as perdas que eu poderia evitar.

Sim, não falo nada de novo; mas, se isso não é novidade nem para mim, por que não me basta para que eu deixe de ignorar o “melhor” e o “pior”, para que eu deixe de adiar as tomadas de atitude? O que faz com que o “mal” do esforço pareça tão maior que o mal que vem do não agir? Ora, problemas não costumam resolver-se sozinhos; ao contrário, geralmente tendem a crescer se não são trabalhados logo. Então, por que cedo ao medo, à preguiça, à irresponsabilidade, ao comodismo? Por que tantas vezes dou prioridade a coisas desimportantes? O que leva essas coisas a tantas vezes superarem em mim o juízo da razão e os conselhos de Deus?

Sim, sei que não existe uma fórmula mágica para ser menos hedonista e mais diligente, especialmente por eu ser humano e imperfeito. Mas sei também que, quando paro e me acalmo, quando deixo que Deus toque em mim e me permito ouvir Seus conselhos, aí sim posso raciocinar com clareza e bem redefinir minhas prioridades; em outras palavras, aí sim posso usar com propriedade a razão para decidir, para pensar nos detalhes, nas causas e nas conseqüências, nos custos e nos ganhos; posso exercitar-me em não me apressar e em não protelar; posso reaprender a contar sempre com o auxílio de Deus, que nunca me deixa, e a procurar a ajuda das pessoas próximas quando for apropriado — aprendi pela dor que é muito fácil passar da coragem à imprudência sem perceber. Posso reaprender a encarar os medos não como fraquezas nem como obstáculos, mas como guias para a prudência.

Outra vez, sei que posso não ter dito aqui nada além do óbvio, mas talvez seja por ser tão óbvio que eu me esqueça dessas coisas com tanta facilidade; e lembrá-lo faz menos mal do que o contrário: movo-me a pensar e percebo que, de fato, “sozinho eu não vou longe, eu preciso do Senhor andando comigo”.1 Pensando, percebo o quanto preciso orar e, orando, dou à minha razão as razões de que ela precisa. E é assim que aprendo a ser o que Deus me criou para ser: imagem e semelhança sua, adorador pensante, orante cogitante.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Orante

Santíssimo Deus, santíssimo Verbo, abençoa-me.
Inspira agora as minhas palavras, para que nelas haja só verdade.

Louvado sejas, ó Rei Eterno, pelo Teu poder e por Tua sabedoria,
que não conhecem limites.
Louvado sejas, Senhor da Glória, pela Tua justiça e por Tua misericórdia,
ambas infinitas, que em Ti convivem em harmonia.

Obrigado, Senhor, pela vida que me deste, pela vida que me dás.
Agradeço mil vezes porque, por Tua inspiração,
não posso conceber ser menos Teu do que sou,
e Te peço perdão mil vezes mais
por saber que me deixo ser Teu muito menos do que deveria.

Ensina-me a imitar-Te, ó Rei que serve, ó servo que sofre,
para que em meio a dor eu também saiba dizer “faça-se”. 1
Ensina-me a imitar-Te, Deus infinito que se fez pequeno,
para que eu nunca me esqueça que “quando sou fraco é então que sou forte”. 2

Sustenta meus braços,
guia meus passos,
inspira meus lábios.
Que minha língua Te cante louvores,
e meu coração por Ti morra de amores.

Tudo que eu tenho Tu me deste,
mesmo sabendo que eu não preciso de mais nada, se Te tenho.
Preciso de muitas coisas que não quero,
quero muitas coisas de que não preciso.

Tantas vezes não sei distinguir umas das outras,
mas Tu, Senhor, sabes quais são todas elas.
Sim, Tu conheces o que é melhor para a minha vida;
que eu saiba usar minha liberdade para confiar em Ti.

Ó Senhor, aumenta a minha confiança em Tuas promessas,
pois eu sei que, “para todo grande dom, existe um grande desejo,
porquanto as coisas que se obtêm com facilidade são menos
estimadas que aquelas que sonhaste por muito tempo”
. 3

“Vem em minha história, revelar tua glória
Quero ver o amor vencer.
Vem, Espírito Santo, sopra em mim Teu canto!
Vem jorrar, me saciar.
É na tua vontade o meu lugar!”
4

1 Mt 26, 42
2 2Cor 12, 9
3 Santo Agostinho de Hipona
4 Missionário Shalom, Sopra em mim Teu canto (CD Estrangeiro aqui)